Crônica: Titia

“Nem levantou da mesa na hora de pegar o buquê.

Que enfiem o buquê no rabo, pensou com seus botões, e bebericou dois golinhos curtos de champagne, encarando o fundo borbulhante da taça. Perdera as esperanças. Naquele momento se sentia a maior fracassada na face da Terra. Devia ter ficado em casa tomando sorvete e assistindo Orgulho e Preconceito no DVD ou algum filme semelhantemente estupidamente romântico, cheio de amores lindos e impossíveis que nunca aconteceriam em sua vida.

Puta vida. Vida puta.

Já estava com 30. Trinta anos na cara! De acordo com as comédias românticas, era mais ou menos agora, com ela sentada sozinha na mesa, perdida em seus pensamentos, enfiada em um belo vestido cor de vinho e num par de sandálias prateadas um pouco apertadas no calcanhar que o homem dos seus sonhos ia surgir por acaso e dirigir-lhe algumas palavras, muito provavelmente cometendo uma gafe.

Ficou nervosa só de se deixar pensar numa coisa dessas e ainda mais nervosa quando sentiu seu coração dar uma cutucada de esperança que a forçou a erguer os olhos e dar uma vasculhada ao redor em busca de um misterioso homem alto, forte e charmoso. Só encontrou o tio Válter dando-lhe um sorriso sem dentes, saudando-a com a taça de champagne na mão direita enquanto a mão esquerda trêmula tentava firmar a bengala, de sua mesa distante.

Arregalou os olhos e voltou a encarar a própria taça como se ela fosse um achado. Maldito velho tarado. Também estava sentado porque não tinha mais saúde pra se manter em pé mais do que o estritamente necessário. O resto dos convidados mais velhos também estavam sentados em suas mesas bebendo e tentando conversar por cima da música ou senão estavam do lado de fora fumando cigarros e tomando um ar.

A maior parte dos jovens saudáveis estavam se acabando na pista de dança, ficando grudentos de suor por causa das roupas sociais, a maior parte das mulheres sem sandálias. Todos os presentes com menos de dezoito anos que não estavam na pista tentando se dar bem estavam sumidos feito ninjas do lado de fora, dando dedadas e beijos acalorados uns nos outros em cantos escuros e outros locais escondidos.

E ela estava sozinha enchendo a cara em sua mesa.

A noiva feliz do dia era sua irmã mais nova. Pois é. Ela era a mais velha. A mais nova tinha 26 anos. Vinte e seis! E já falavam que ela estava ficando pra titia. Porra, e eu então?, resmungou em pensamento. Fez sinal pro garçom encher a taça vazia. Agora além dela, só faltava o panaca do irmão caçula, o único filho homem da casa, mimado até apodrecer. Ela não o viu mais depois da cerimônia. Ou estava bêbado como um gambá, suando no meio da pista de dança ou estava comendo uma das damas de honra no banheiro do clube.

O palhaço tinha só 21 anos e era o merdinha mais canalha que ela já tivera o desprazer de conhecer na vida. Só tolerava porque era irmão, senão jogava no meio da rua, sem nem um tostão. O primeiro carro que ela tivera era usado, tinha a direção dura e um macete secreto pra poder abrir a porta. Quando o irmão babaca fez 18, o pai lhe dera um carro de 40 mil completo, todo orgulhoso e o filho da puta ainda bateu a parada em menos de um ano.

Tomou mais um gole e chacoalhou a cabeça, era o despeito falando. A irmanzinha estava casando. Era só amargura. É a idade, falou uma voz zombeteira no fundo da sua cabeça. Ela mandou ela se foder. A culpa era da irmã dela, a que estava casando. Foi uma maldição.

Dois anos antes estavam comendo uma porção de coxinhas e ela comeu a última. “Não vai casar!” brincou a irmã “vai ficar pra titia!”. Dois dias depois, a menina noivava.

Foi zica!

Praga de irmã mais nova despeitada, só porque ela era mais velha, mais bonita, mais inteligente e mais responsável. Nunca precisou ficar escondida debaixo da asa dos pais depois que saiu da faculdade. Mesmo assim, é você quem tem que se acabar pra manter aquele apartamento e aquele carro de merda, a vozinha lhe lembrou.

A irmã mais nova tinha casado com um cara e com seu dinheiro. Fora dondoca a vida inteira e agora ia ser perua. O sujeito era formado em Direito e tinha passado num concurso disputadíssimo, que pagava super bem, mas iam ter que se mudar pro Pará. Que se fodam no Pará, jogou a praga de volta, em pensamento. Depois se sentiu culpada e pediu pra mandinga ser cancelada.

A noiva tinha formado em Psicologia com a barriga, não sabia porra nenhuma. Nunca tinha trabalhado na vida e nem ia. Ela ficou pensando se a irmã tinha jogado suas cartas certo, se tinha dado sorte ou se o Universo era mesmo um lugar engraçado.

Filho da puta.

Depois um pensamento bobo veio à sua cabeça: a sua irmanzinha ia fazer sexo naquela noite. Não que ela fosse virgem, afinal, hoje em dia é difícil, mas era estranho imaginar a irmanzinha fazendo essas coisas. E pior: saber que a irmanzinha estava fazendo sexo e recebendo carinho com regularidade enquanto ela estava sentada sozinha afogando as mágoas.

Tentou se lembrar quando tinha transado pela última vez. Xingou baixinho quando se tocou que já faziam dois anos. Se a aridez da sua vida sexual fosse uma criança, ela já estaria andando, falando e provavelmente sem fraldas.

E já estava a pelo menos três, talvez quatro anos sem se envolver num relacionamento sério. Os últimos tinham sido ruins demais pra ela ter pelo menos a paciência de se arriscar de novo. Caras babacas, gostavam mais de desfilar com ela do que amá-la de verdade e na hora da verdade tinham uma atitude muito distante do esperado de um cavalheiro ou ao menos do esperado de um bom homem.

Porcos.

Depois do último, que era apaixonado pela sua cobertura de luxo e seu carro esportivo, mas para o qual ela acabou dando porque já estava há um ano sem nem pegar na mão de alguém, ela se mancou e resolveu não mais ceder à tentação ou à carência pra não ser feita de idiota. E olha que ele nem mandou bem.

A verdade é que por mais sensata que foi essa atitude, nada melhorou. Abandonou as one night stands pra ver se arrumava alguma coisa séria e concreta, mas os pretendentes que lhe apareciam eram um pior do que o outro. Teve um mais velho, careca e sovinha; teve o marombeiro retardado; teve o nerd carinhoso; teve o feio amável, mas que tinha mau-hálito. Todos eles não passaram nem no teste do jantarzinho.

Um ou outro até tentou de novo. Apareciam de surpresa no seu apartamento com um sorriso idiota e uma garrafa de vinho. Ela pegava o vinho e os mandava embora. Ficava com fama de cínica. Depois ia ficar furiosa consigo e com sua vida, enquanto bebia na sala. Era karma. Ela pedia amor e ele aparecia em sujeitos desinteressantes dos quais ela tinha pena e mesmo assim precisava magoar para se ver livre. Uma sacanagem.

Daí ficava sozinha e continuava reclamando mentalmente. Era pedir demais aparecer alguém que ela gostasse? Tinha raiva dos irmãos. O palhaço mais novo sempre tinha sido o terror do colégio e o orgulho do pai. Comia todas as menininhas que dessem uma chance. A maior parte delas eram mais burras e fúteis do que ele, porém, tão bonitas e gostosas quanto ele. Desnecessário dizer que ele era arrogante. Já a irmã, sempre arrumou pretendentes ricos, inteligentes e bem apessoados. Ela merecia um desconto, por mais estúpida que fosse, sempre teve um bom coração e uma atitude de menina que era provavelmente o que conquistava esses caras.

Já ela, a irmã mais velha, tinha passado do ponto em que se perguntava o que diabos os homens viam nela e tinha passado para se os homens viam alguma coisa nela. E o pior: agora ela estava velha.

Mas não se sentia assim, claro. Talvez ela não fosse. Não sabia o que pensar. Quando ela tinha vinte anos, achava que quem tinha trinta era velho, mas agora ela tinha trinta e não achava que as coisas tinham mudado tanto. Só que agora era oficial: ela estava ficando pra titia.

Soube disso quando um dos priminhos mais novos, de uns dez anos, a perguntou, inocente, antes do casório: “e você, prima, quando casa?”. Quem tava perto riu. Ela deu um sorriso amarelo. O pai gostava de brincar com os parentes e amigos falando que ela era sapatão. “Nessa casa não aceito quem tem alguma coisa contra lésbicas! Olha só a Fulana!” e todos riam. Ela queria morrer.

Olha, ela não tinha mais ânimo. Até muito recentemente, se divertia em casamentos e formaturas como qualquer pessoa normal. Se acabava de dançar, bebia até cair, falava bobagem, rasgava meia, quebrava salto, entrava na briga pelos buquês. Até nisso o Universo foi sacana; em toda a sua vida, nunca tinha conseguido pegar sequer um buquê. Sinal dos tempos. Aliás, o Tempo, esse só estava passando.

Malandro.

Mais uma vez, culpou os filmes e seus malditos finais felizes. Tinha virado titia mesmo. Tinha raiva até dos adolescentes trêmulos escondidos atrás dos arbustos lá fora. Tinha raiva até do Shakespeare e aquele seu blábláblá. Cadê o seu Romeu pra morrer por ela?

Mas o que mais lhe irritava era saber que no fundo no fundo ainda tinha esperança. Que aquela melancolia era em parte o álcool falando e que até o outro dia teria passado. Tentava botar na cabeça aquele pensamento de que o Amor é um sentimento fabricado que as suas amigas magoadas e mal-amadas gostavam de pregar, mas não colava.

Deu mais uma vasculhada tímida ao redor, com seus olhões castanhos arregalados. O tio Alfredo contou uma piada suja na mesa ao lado, todos os coroas barrigudos riram. Soltou um suspiro triste quando escutou seu nome por cima do barulho e da música.

A Adelaide, uma das damas de honra mais feinhas, mas uma das melhores amigas dela e da irmã, lhe acenava e dava a volta nas mesas, trazendo um sujeito bonitão pela mão. Ele era alto, forte e vinha meio desconcertado, meio tímido. A barriga da irmã mais velha tremeu. Ele era um metro e oitenta e cinco de charme.

“Amiga, esse aqui é o Rafael, meu melhor amigo, ele tava doido pra te conhecer!” disse a dama de honra feia. O rapaz sorriu sem graça. Seus olhos eram castanhos profundos. Usava um blazer preto, provavelmente de corte fino italiano com uma belíssima camisa de cor clara. Ele abriu a boca e mostrou dentes perfeitos. Ai meu Deus, pensou ela, é agora.

“Oi colega, amei seu vestido! Você sabe quem desenhou?”.

Ela deixou os ombros caírem, derrotada, suspirou e riu baixinho. “É alugado, mas senta aí”. Ele puxou uma cadeira do seu lado e sentou-se. “é que eu desenho e o meu namorado também. Ele ia morrer se visse esse vestido!”.

Ela riu. É, não foi dessa vez, o príncipe encantado ia ter que ficar pra próxima…”

José Abrão, 19 anos, estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás anos.

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