Texto do Final de Semana

Ele só não te quer

Senta aqui, deixa eu te falar uma coisa. Ele que some por dias, corre atrás só quando te vê caminhar pra longe, desmarca programas em cima da hora, é sucinto quanto à própria vida e mais superficial que piscina infantil. Esse mesmo que você tanto fala, e todo dia vem com alguma nova furada tentando desesperadamente consertar pra ter em troca um pouquinho de amor marejado. É, ele só não te quer. Simples. Pior de tudo, que nem culpado pode ser. Talvez sim, por não ser honesto logo de cara. Contudo, bem sabemos o quanto a covardia já é item de fábrica em praticamente todo ser bicho homem, e por isso, a prolongação de situações tediosas, insuportáveis e para nós, torturantes. Não é porque terminou um namoro agora, ou nunca teve simplesmente um relacionamento decente. Nem porque é novo, ou anda trabalhando demais, ou ainda, a faculdade exige muito. Pra cada alternativa que você cria, uma desculpa. Chegar a esse ponto obscuro de perder qualquer amor próprio na busca de se achar num sentimento que o outro nem chegou a cogitar existir. Larga esse telefone, apaga o número desse panaca, não espera mensagem nenhuma porque na verdade, o que ele quer é ter em quem afogar a pressão final da noite (ou o próprio ganso), de quem não conseguiu algo na festa, e tenta tentando a agenda-geladeira onde congela quem desperta interesses específios e minúsculos, diante as possibilidades de amor de amor decente tão sonhadas.

Você, que quer tanto ter com quem dormir – e que isso não se resuma a um programa especificamente sexual. Mas sim de braço masculino envolto em cintura feminina, duas respirações próximas, pé com pé. Você, que aceita ir pra casa do sujeito que mal deu um beijo na boca e se culpa o dia inteiro seguinte, sabendo que juntamente com sua dignidade e o caráter do cara, suas chances de algo que desenrole tenham caído drasticamente. Você, que cumprimenta ele que vira a cara de tanta vergonha. Você, que liga bêbada no meio da madrugada com aquele punhado de esperança embutido na voz alcoolizada. Você que intima, sufoca, stalkeia e cola no pobre coitado: dá um tempo. Se foque em si. Nutra aquele amor que desde cedo mamãe e papai plantaram e ensinaram que, é importante, sim. É olhando muito pro próprio umbigo que a gente chama atenção em se concentrar tanto sendo nosso centro do mundo que acabamos chamando atenção que puxa, ela se cuida. Melhor: se gosta. O único amor livre de qualquer traição, infelizmente, é o próprio. Tá pra nascer quem prefira o outro a si mesmo, depois de descobrir a maneira boa e sadia de se automimar.

Por isso é que digo: desencane, que uma hora aparece. Não aquele seu tipo cafajeste e sem um pingo de índole, mas um cara bacana que de repente assim, aos pouquinhos, vai tomando espaço e te dando possibilidade de surpresas, estômagos compressos e pernas agitadas. Sem expectativas, deixando toda e qualquer possível irrealidade, imaginação fértil longe do terreno dos pés no chão. Agora, se não é você quem ele quer, caia fora. Vença a insistência interna em achar que, só porque você está ali a todo o momento e fazendo certa pressão, ceder é a única escapatória do sujeito. Há ainda os modos ‘ignorar’ e ‘partir pra ignorância’ – o que não se baseia em violência física, mas na irritação tão suprema que chega a ponto de deixar a razão de lado e as palavras soltas, ferinas na sua direção. Se passaram três dias, e o sumiço do moço se fizer uma constante, se você é deixada falando sozinha com frequência, se quem apenas se preocupa e sente esse caos que se tornou a situação toda também é você, se livre. Vá para uma academia, faça compras, se foque no trabalho, saia com as amigas, adote um animal. Tudo, menos descentralizar da sua vida, desse momento tão presente que se inaproveitado passará em branco enquanto você, tentando o impossível, mirou em quem não se deixa atingir tão fácil, não por você.

Chega de desilusão e contos de fada, de cegar à si mesma e não escutar quem tanto tenta alertar quanto aos perigos de um comportamento assim, tão irracional e errôneo. Corações pulsam mesmo, mas será que não dão defeito assim, despertando a qualquer toque que pode na verdade ter sido um esbarrão, um desencontro, um mero engano. Ferrenha seja a boa vontade em desconfiar no começo e se entregar, apenas quando o jogo estiver aberto e os sentimentos, simbióticos. Que amor mesmo, a gente não persegue: se dá conta assim, como quem não quer nada, mas deseja lá no fundo muito que pode mesmo ser. E se beija, e se quer, e sente falta mesmo tendo passado apenas meia-hora longe. E liga. Responde. Procura. Tanto de um lado, quanto de outro, o lucro – que ao invés de líquido, é sentimental – vem em dobro e em forma de sorrisos apaixonados e cafuné na cabeça.

Texto tirado do blog: Calmila escrito por Camila Paier

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Sobre Camila Gomides

Aluna do curso de Design de Moda da UFG.
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